6 de jun de 2017

Jornal Vivo "DIÁRIO DAS SOMBRAS" - Trupe Rede de Goiânia


 
Diário das Sombras - Jornal Vivo*  


Primeiro ato - leitura de fragmentos de notícias que denunciam violências institucionais, cometidas por agentes do Estado que deveriam proteger crianças e adolescentes.



      1) O caso dos meninos assassinados pelo pai e pela madrasta

“Em 5 de setembro de 2008, os irmãos João Vitor dos Santos Rodrigues, 13 anos, e Igor Giovani dos Santos Rodrigues, 12, foram assassinados, esquartejados e jogados no lixo pelo pai, João Alexandre Rodrigues, e pela madrasta, Eliane Aparecida Antunes”

Veja.com, 13 de janeiro de 2010

“A Corregedoria do Tribunal de Justiça de São Paulo começou a apurar nesta segunda-feira se a morte dos irmãos poderia ter sido evitada. Para o desembargador Antônio Carlos Malheiros, não houve erro na decisão da juíza Isabel Cardoso da Cunha Lopes Enei, da Terceira Vara da Comarca de Ribeirão Pires, que autorizou a volta das crianças para a casa do pai, depois de terem passado nove meses num abrigo para menores. A juíza tomou essa decisão com base no laudo assinado pela psicóloga e assistentes sociais. Segundo o laudo, um abrigo deve ser provisório e a família é o melhor ambiente para as crianças permanecerem.

Os dois meninos foram para o abrigo depois de denúncias de maus-tratos contra o pai e a madrasta. Na delegacia de Ribeirão Pires, já havia dois boletins de ocorrência contra eles. No abrigo, os irmãos passaram por avaliação da psicóloga Verônica Topic, e deixaram o local com autorização do Conselho Tutelar. Para a psicóloga, as crianças 'manipulavam a realidade para obter vantagens' ao dizer que eram maltratadas”.

Extra, 8 de setembro de 2008.




      2) Robin Camp - juiz canadense

Juiz pergunta a uma mulher em julgamento por estupro: “Por que simplesmente não deixou as pernas fechadas?”
Magistrado canadense humilhou jovem que denunciou agressão sexual e acaba renunciando

Era uma audiência por estupro e o juiz canadense Robin Camp se dirigiu à suposta vítima, de 19 anos, e lhe disse em voz alta: “E por que simplesmente não manteve as pernas fechadas? ”. Depois, após se referir à jovem como “acusada”, afirmou: “As mulheres jovens gostam de fazer sexo, especialmente se estão bêbadas; mas o sexo

El país, 10 de março de 2017 




     3) Eduardo Luiz de Abreu Costa – Juiz que absolveu Moacir Rodrigues Mendonça - delegado da Polícia Civil de São Paulo, acusado de estupro contra a própria a neta, que tinha 16 anos na época da denúncia.

 Sentença do magistrado:

“A não anuência à vontade do agente, para a configuração do crime de estupro, deve ser séria, efetiva, sincera e indicativa de que o sujeito passivo se opôs, inequivocadamente, ao ato sexual, não bastando a simples relutância, as negativas tímidas ou a resistência inerte. Não há prova segura e indene de que o acusado empregou força física suficientemente capaz de impedir a vítima de reagir. A violência material não foi asseverada, nem esclarecida. A violência moral, igualmente, não é clarividente, penso”, escreveu o juiz Luiz de Abreu Costa.

Informações do processo: 

“O delegado teria levado a neta, então com 16 anos, para um quarto do hotel Thermas dos Laranjais, em Olímpia, e abusado sexualmente dela, em setembro de 2014. Conforme relatou durante a investigação pela Corregedoria da Polícia Civil, inicialmente a adolescente ficou sem reação, perplexa com a investida do avô.

Consumado o ato, segundo ela, o familiar ainda advertiu que ‘isso fica entre nós’. A suposta violência veio à tona vinte dias depois, quando a adolescente foi flagrada no quarto com um revólver do pai, policial militar, tentando o suicídio”.

Estadão, 20 de maio de 2016



     4) Alessandro Thiers - Polícia afasta delegado que disse não saber se houve estupro coletivo

“Após afirmar que não estava convencido de que realmente houve estupro coletivo no caso da menina de 16 anos estuprada por mais de 30 homens no Rio de Janeiro, o delegado Alessandro Thiers foi afastado do caso pela Polícia Civil.

A advogada da vítima, Eloísa Samy, e o Ministério Público pediram o afastamento de Thiers alegando machismo e misoginia no tratamento da adolescente.

‘Ele não tem condições de conduzir esse caso. Durante o depoimento da vítima, fez perguntas que claramente tentavam culpá-la pelo estupro. Ele chegou a perguntar: 'Você tem por hábito participar de sexo em grupo'. Não acreditei e encerrei o depoimento’, disse Samy à BBC Brasil”.

BBC Brasil, 29 de maio de 2016




     5) Theodoro Alexandre da Silva Silveira – promotor que humilhou e ofendeu adolescente vítima de estupro cometido pelo próprio pai.

Palavras do promotor

"(...) Tu fez eu e a juíza autorizar um aborto e agora tu te arrependeu assim? Tu pode pra abrir as pernas (...) pra um cara tu tem maturidade (....) e pra assumir uma criança tu não tem?"

“sabe que tu é uma pessoa de sorte, porque tu é menor de 18, se tu fosse maior de 18 eu ia pedir a tua preventiva agora”. 

“Vamo. Tu teve coragem de fazer o pior, matou uma criança, agora fica com essa carinha de anjo” (se referindo ao aborto feito com autorização da Justiça pela vítima).

O caso ocorreu em fevereiro de 2014, na cidade de Júlio de Castilhos, na região central gaúcha. O pedido de investigação foi feito por um desembargador da 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do estado. A menina, à época com 13 anos, teria engravidado depois de anos de abuso. Ela denunciou o pai, que foi preso. Mas, após um ano, a vítima negou que ele seria o estuprador. Segundo a desembargadora Jucelana Lurdes Pereira dos Santos, relatora do processo, a adolescente teria sido pressionada pela família.

Estadão, 09 de setembro de 2016
G1, 08 de setembro e 2016



     6) Clarice Maria de Andrade – Juíza responsável por manter a menor L.A.B. presa por 26 dias numa cela masculina em Abaetetuba, no Pará

“Em 21 de outubro de 2007, a menor L.A.B. foi presa em Abaetetuba, no Pará, sob a acusação de tentar furtar um telefone celular. Tinha 15 anos, menos de 40 quilos e um metro e meio de altura. Levada para a delegacia da cidade de 130 mil habitantes, a quase 100 quilômetros de Belém, passou os 26 dias seguintes numa cela ocupada por mais de 20 homens. Durante todo o tempo, o bando de machos serviu-se da única fêmea disponível. Estuprada incontáveis vezes, teve cigarros apagados em seu corpo e as plantas dos pés queimadas enquanto procurava dormir. Alguns detentos, aflitos com as cenas repulsivas, apelaram aos carcereiros para que interrompessem o calvário. Os policiais preferiram cortar o cabelo da adolescente com uma faca para camuflar a aparência feminina. A rotina de cinco ou seis relações sexuais diárias foi suspensa apenas nos três domingos reservados a visitas conjugais. O tormento só acabou com a intervenção do conselho tutelar, alertado por uma denúncia anônima”.

Veja.com, 13 de outubro de 2016.




     7)  Capacetes Azuis - Soldados de forças de paz são acusados de abusar de crianças em zonas de conflito.

Investigação mostra que soldados franceses exigiam serviços sexuais em troca água e biscoitos na República Centro-Africana. 

“GENEBRA - Soldados de tropas internacionais de paz são acusados novamente de estuprar crianças em zonas de conflito. Na manhã desta sexta-feira, 29, a ONU confirmou que está investigando novas denúncias feitas por meninas na República Centro Africana dizendo que foram ‘sexualmente exploradas’ por tropas internacionais. Os crimes teriam ocorrido em 2014, mas apenas agora estão sendo divulgados. 

[...]Um outro garoto de nove anos e uma menina de sete foram questionados diante de alegações de que foram violentados por tropas francesas. ‘A garota disse que fez sexo oral com soldados franceses em troca de uma garrafa de água e biscoitos’, diz a ONU em um comunicado. Tanto ela como o garoto disseram ter sido ‘abusados de forma repetida por vários soldados franceses’.

Estadão, 29 de janeiro de 2017




 
     8) Durante anos muitos menores foram abusados em um centro da Igreja Católica, na Argentina. Ninguém quis ouvir as denúncias das vítimas ou seus familiares

“Eram crianças, surdas e muito pobres. As vítimas ideais. Foi fácil convencê-las a não contar nada. E se contassem, como aconteceu com algumas, ninguém iria acreditar nelas. Ainda hoje, com vinte e poucos anos, surpreendem advogados e promotores pelos rostos de terror que fazem em rodadas de reconhecimento quando veem o padre Corradi, de 82 anos. [...] Realizados principalmente por sacerdotes, às vezes com a ajuda de uma freira que testava meninas e meninos para encontrar os mais fracos e entregá-los aos sacerdotes.

[...] Várias testemunhas concordam. Primeiro, a freira KumikoKosaka batia nos menores para testá-los. Aqueles que resistiam, se salvavam. Os que eram submissos acabavam sendo abusados”, explica Sergio Salinas, advogado de várias vítimas e grande incentivador da causa apoiado por sua associação, Xumek.

[...] Cintia está especialmente machucada. Se tivessem prestado atenção nela poderiam ter evitado muitas vítimas. Em 2008, ela viu que seu filho, internado no Provolo, estava muito mal. “Dormia com a luz acesa, começou a se machucar, cortava os braços, as pernas, disse que não queria ficar lá. E um dia me trouxe um desenho pornográfico, era uma pessoa mais velho fazendo sexo oral em outra. Tinha colocado olhos como se outros estivessem olhando. Me disse que tinha sido forçado a fazer sexo oral com outro aluno”. Cintia foi até a escola escandalizada. Mas ali pediram para não que não contasse nada, prometeram que iriam afastar o responsável. Ela fez a denúncia e tirou a criança. Ninguém a levou a sério.

“Nem mesmo as mães acreditaram em mim. Disseram que meu filho e eu éramos briguentos. Teria parado aí. Mas não. Continuou até 2016. Isso é o que dói mais”. Alguns hoje têm filhos, têm dificuldade para contar o que fizeram com eles. Mas dão força uns anos outros. Alguns eram tão pequenos que não podiam transmitir o que acontecia, não sabiam. Encontramos muitos que se autolesionavam porque não podiam dizer o que estavam fazendo com eles. Agora querem falar ao vê-los presos. Um garoto que agora vive na província de San Luis nos contou: ‘Se eles forem soltos, eu me mato’”.

El país – 14 de maio de 2017


Após anunciar cada notícia a leitora marca de vermelho o corpo da menina da escuridão.











Segundo Ato - Canto de dor

 “Dissestes que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira”

   

Retirada das cores e da flores da menina



 



 

Terceiro Ato - Leitura da Carta da Escuridão 






AQUI estou, ferida aberta. Criatura encantoada entre paredes, sou toda dor e medo. Todas as minhas feridas gritam, mas nem sempre meu grito tem voz. Às vezes são sussurros, gemidos, sons abafados pelo medo. Medo é coisa muito esquisita! Muda a ordem das coisas, confunde minhas vontades, quero correr ele me petrifica, quero gritar ele deixa boba minha língua. Ainda não entendi direito, acho que o medo é um amigo estranho, mas que no fundo quer me protege da morte, da destruição de meu espírito. Ora, será que ele não vê que nesse lugar escuro, a morte até parece um doce convite de paz e aconchego.



No desespero, frente a frente com meu carrasco, confesso: já chamei por ela muitas vezes. Desespero é palavra que me encabula, minha professora diz que o “des” aí é não. Não espero, é isso, não espero, não consigo esperar mais. O tempo daqui é diferente do seu, cada segundo se estica em um sem fim de dor. Mas que bobagem! A morte é fraca, ela não vence a violência. Ela não morre comigo e depois ainda virá mutilar o espírito de minhas irmãs e meus irmãos, sagrar o corpo de minhas filhas e meus filhos, ahhh e meus netos e netas. Quando penso nisso meu desespero não tem tamanho, nem cabe mais em mim.



AQUI sem forças, rendida no chão, um fio delicado ainda me mantém viva, esse fiapo de nada se chama esperança. Esperança de que logo chegará alguém mais forte do eu - forte de verdade, mais forte até do que aquele que me ofende e fere, pra acabar com esse inferno, e dizer bem alto:

- Isso não pode!
- Nunca mais permitirei que te machuque assim. - ACABOU, ACABOU, ACABOU!

AQUI dentro, na briga entre o desespero e a esperança, um único sonho me sustenta, que alguém LUTE POR MIM.









___________

* Jornal Vivo "(ou jornal dramatizado), técnica criada por Moreno no início dos anos 20, não é somente teatral, mas, acima de tudo, sociodramática. ‘Mesmo que um jornal impresso traga reportagens, a descrição dos acontecimentos é feita em palavras. Mas num jornal vivo o evento tinha que ser dramatizado de acordo com as características culturais da localidade. Os papéis   e   o   contexto   tinham   que   ser   retratados   para   adquirir   significado,  nos   gestos, movimentos e todas as formas de interação características de um particular contexto cultural’”.


Atrizes da Trupe:

Primeira leitora - Sheila Cunha
Segunda leitora - Railda Martins
Terceira leitora - Adriana Crispim
Quarta leitora - Lady Maria
Quinta leitora - Ionara Rabelo
Sexta leitora - Marta Silva
Sétima leitora - Kellen Alves
Oitava leitora – Maria Aparecida Braga dos Santos
Desatadoras: Alcione Vieira Rocha e Cecília Alves
Menina da escuridão: Cida Alves

Autoria da "Carta da Escuridão": Cida Alves

Fotos: Paulo Rikardo, Agenor Moraes, Elaine Mesquita e Cecília Alves
Música: Há tempos - Legião Urbana

Um comentário:

  1. Lindo! Imagino que tenha sido emocionante esta apresentação. Gostaria de ter participado.
    Abraços e parabéns!

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