24 de set. de 2011

As tempestades dos novos ventos - Márcia Torres Pereira

"Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido."

Charles Chaplin
em O Grande Ditador

Cida, seu pequeno texto no blog me inspirou... Aliás seus temas vêm me "provocando" há tempos. Vai aí um texto de gente que se mete... no mundo para incomodar um pouco.
As tempestades dos novos ventosPor Márcia Torres Pereira*
O duplo caráter do progresso dos novos tempos, que sempre desenvolveu a idéia de um potencial de liberdade, promoveu a sua alienação.
Essa é a grande tempestade que os novos ventos da liberdade provocaram. O aspecto humano de nossa cultura encontra-se tão distante do que é verdadeiramente humano com a nitidez de suas produções e com a naturalização das tempestades, que acabamos por acostumarmos com os novos ventos.
Há uma "ventania" real capaz de não nos afetar, capaz de não significar nada. As tempestades são produzidas exatamente aí, onde nada mais parece afetar: reproduzimos tudo que a cultura nos apresenta, as cenas das novelas, os tais paradigmas por elas nos passado, as inovações, os modelos, as idéias, os comportamentos e a mais cara de todas as ações - a obediência a tudo isso.
Sentimos medo de não sermos aceitos ao que a mídia nos apresenta e nos impõe. Essa é a grande autoridade, mutilando a essência humana, coerção substitutiva dos ensinamentos paternos, autoritarismo sedutor e alienante que nos cega e não nos faz perceber o quanto somos seus imitadores. Essa cegueira é a luz que confere a existência de uma sociedade de parasitas conformados, reproduzindo o arquétipo das ruínas arqueológicas das cidades destruídas pelas guerras em nome de um princípio que a tudo justificava, inclusive a própria vida.
Sob a rudeza e a insensibilidade dos homens, reproduzimos a educação dos nossos filhos, dos nossos alunos, das crianças e não vemos o quanto somos manipulados pelas justificativas e ações que nos levam aos nossos próprios cárceres, os cárceres de nossa própria cegueira e de nossa falta de reflexão. Queremos tudo pronto, tudo fácil, não queremos pensar, refletir, somos submetidos à métodos de todas as formas e nem percebemos que somos conduzidos mecanicamente.
Não observamos que somos levados por uma mão invisível que se estabeleceu sobre todos e sobre as nossas mentes. Aceitamos tudo passivamente. Se chegamos a achar algo estranho, logo vem o pensamento do controle cultural: "pare de viajar, o mundo é assim mesmo! Você vai poder mudá-lo? Aceita o que está aí. O mundo mudou! Pare de filosofar!" E assim, diante de tal constrangimento programável, nos calamos e não conseguimos mover.
No depoimento feito pela diretora da escola da criança que cometeu o ato violento contra a professora e contra ela mesma, o registro feito pelos jornais é de que a criança era tranquila! Isso comprova o quanto não percebemos o outro, o quanto estamos debaixo de tempestades, sem saber. Precisamos acordar, despertar do sono e perceber que é emergente criar a nossa vida, inventar nossas subjetividades perdidas, tomar coragem diante de tais contingentes, deixar de ser como todo mundo, romper e resistir à indiferença.
Deixar que nossas mentes possam realmente realizar a viagem da dúvida, do angustiante, da dor, da reflexão, de chorar nossa miséria interior que se congela a cada dia nos projetando a imagem enganosa de tudo "é assim mesmo". Façamos novos ventos, entendendo que cada vida é um altar para cada um de nós, para aplacar tempestades, construir bonanças... e trazer à existência a real concepção do sujeito.




*Márcia Torres Pereira é professora e mestre em educação pelo Programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação da UFG.

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